1 -
Não sei se é
porque
muitos
com
responsabilidades na
Igreja se têm limitado a
explicar
que provocar o
aborto é
um
grande
pecado, esquecendo-se de
explanar por
que é
que a despenalização/legalização/liberalização
constitui
uma
gravíssima
injustiça,
que se ouve
um
número
nada
despiciendo de
católicos
praticantes,
mesmo de
Missa
diária, dizendo
que irão votar
sim, no
referendo de 11 de
Fevereiro,
porque “votar a
favor da despenalização/legalização/liberalização
do
aborto
nem é
pecado
nem é
contra a
doutrina
católica. Fazer
abortos é
que é, e
eu
não vou fazer
nenhum
aborto”.
Uma
vez
que
todo o
católico deverá
saber que o
aborto provocado é
pecado
por
matar deliberada e directamente
um ser
humano
inocente, poder-se-ia
começar por
ilustrar o
absurdo do
raciocínio substituindo a
palavra
aborto
por, v. g.,
católico
praticante…
Seria
muito
grave,
para dar
outro
exemplo,
que se despenalizasse a
matança dos
membros do
Partido
Socialista
ou dos
membros do
Governo,
porque o
Estado renunciaria ao
seu dever de os
proteger,
através da
prevenção e
dissuasão
que a
punição representa, encorajando
assim os
homicidas.
Mas
mais
grave
ainda seria se
não
somente despenalizasse
como se pusesse ao
dispor de quem
quer
que fosse,
por
exemplo as
mulheres
ou
qualquer
outro
grupo
social, a
executar à morte
esses
mesmos
membros,
através dos
seus
serviços de
saúde, bastando
para
isso o
pedido,
sem
ter
que apresentar
razões.
Quem
não
vê
que admitir,
fazer campanha
por
ou votar uma
lei destas constituiria
um
pecado
particularmente
grave,
em
virtude da
sua
singular
injustiça?
Pois se
vê
isso
também
não pode deixar
de
ver
o
mesmo
em
relação ao
aborto.
Não há
volta a dar-lhe –
não à
gente
menos
gente
que a
gente –
todo o ser
humano é dotado de
igual
dignidade, de
igual
valor,
que
qualquer
outro ser
humano.
Quem
vota uma
lei,
como a
que vai ser
referendada,
que
admite,
proporciona
e
promove
o
aborto
provocado
torna-se
culpado
não
só de escolher
uma
lei
intrínseca e
gravemente
injusta
mas
também de todas as consequências
negativas
que dela advierem.
Em abstracto pode
ser contra o
aborto e
até subjectivamente
desejar que
ninguém aborte,
porém, de facto, contribui
para a institucionalização do
crime organizado, dispõe-se a
pagá-lo
com
o
dinheiro dos
seus
impostos e
quer
que
quem queira fazer
o
aborto
tenha o
direito de o
fazer, o que
significa
que
quer
esses
abortos provocados
por
quem os quis,
isto é, secunda a
decisão
iníqua,
ou seja, é
cúmplice do
mal praticado.
Como,
devido às
suas
circunstâncias qualificantes, o
homicídio
em
forma de
aborto, é
particularmente
perverso e
abominável,
é
claro
que conformar-se
com, fazer
campanha
por
ou votar
sim é
um
pecado de
extraordinária
gravidade,
que
muito ofende a
Deus.
2 –
Outros católicos há,
que desorientados pela
intensa propaganda
daqueles
que,
como
Herodes
disfarçam
a
sua
malvadez
com propósitos
louváveis,
pensam
que
devem
votar
sim: a) “para
acabar
com
o
aborto
clandestino”;
b) “porque
mais
vale o abortamento das crianças
antes, do que as
já nascidas virem a
passar fome,
viver na miséria
ou serem abusadas, por
vezes até à
morte”; c) “porque é uma
humilhação que o
aborto seja um
crime ou
que as mulheres sejam
julgadas
e
mandadas
para
a
prisão”.
Quem
primeiro poderá responder a estas
questões senão o
próprio Deus
que na Bíblia,
através do apóstolo S.
Paulo,
nos
ensina
que nunca,
em nenhuma
circunstância, se pode fazer o
mal para
que daí advenha um
bem?,
ou seja, que é
sempre pecado
praticar o mal, e
tal mal!,
para conseguir
qualquer bem – os
fins não justificam os
meios, isto é
um fim
bom não resgata
ou torna
bom um
meio injusto
ou pecaminoso.
De
qualquer modo,
nenhum desses fins,
ainda que
bons o que
não se concede na sua
totalidade, é alcançado pela
hipotética vitória do
sim.
Não passam de engodos
para atrair os
espíritos menos
prevenidos.
De
facto,
a)
Em nenhum
país do mundo
onde o aborto foi despenalizado/legalizado/liberalizado
o
aborto
clandestino acabou,
antes se manteve ou
cresceu
o
seu.
b)
Em primeiro
lugar, não faz
sentido colocar as
coisas em
alternativa: importa combater os
males não
com outros
males mas
com o bem – “não
te
deixes
vencer pelo mal,
mas vence o mal
com o bem.”;
em segundo
lugar, é absurdo
atribuir maior
valor a uma criança
só porque é
um pouco
maior e vive cá
fora do que a
outra só
porque é mais
pequena e vive lá
dentro; em
terceiro lugar,
como muitos
especialistas o atestam a
violência do aborto gera uma
espiral de violências e
abusos que se abatem
sobre as crianças
já nascidas,
em especial
sobre os irmãos dos
bebés
abortados,
suscitam
o
divórcio
ou a ruptura de
relações entre os
pais da criança
eliminada,
originam
situações
de
pobreza e ciclos de
decadência, e, mais
grave ainda,
aumenta o número de
infanticídios, pois tende a
torná-los
aceitáveis.
c) i)
Roubar um telemóvel é
crime, fotocopiar
um livro
inteiro é crime,
dar uma estalada a
outro é crime,
insultar alguém é
crime, destruir
ovos de cegonha é
crime. Querem que
matar uma criança
nascitura, um
filho, não seja
crime? Se uma mulher
for
apanhada
a
fanar
um telemóvel, a fotocopiar
um livro, a
difamar alguém, a
estrelar um
ovo de cegonha vai a
tribunal, é julgada e pode,
em teoria,
ser presa.
Ninguém se importa,
toda a gente
acha lindamente,
mas se for por
ter morto
propositadamente um
filho, até à
idade de dez
semanas, já se
acha uma humilhação?
ii)
Eu, confesso,
que já fui julgado
duas
vezes,
de ambas
por ter redigido
artigos; sendo que a
última foi no ano
passado por
causa de um
em que dizia
que é gente perigosa
aquela
que
anda
convencendo
os
demais
a
legalizar,
e
fazer
disso
um
direito cívico, a
morte de seres
humanos inocentes, e
acrescentando
que
quem
os
mata
é
homicida.
Embora achasse tudo
muito surrealista,
não me senti
nada humilhado. Será
normal que
quem descreve a verdade e se opõe
à
injustiça
seja
julgado
e
condenado
(em
teoria
poderia ser condenado à
prisão), e que
quem mata
ou promove a matança
não possa sê-lo?
iii)
Todos os julgamentos
por aborto a
que assistimos pela
comunicação social foi
de
mães
que
abortaram
os
seus
filhos
muito depois das
dez semanas. E as
mães que vierem a
abortar os seus
filhos na clandestinidade, continuarão
também a cometer
um crime.
Como é que a
suposta vitória do
sim irá
acabar com os
julgamentos?
iv) Há
mais de trinta anos
que não se conhece
um único
caso de mulher
presa por ter
abortado.
No
entanto,
há
prisões cheias de
mulheres. Porque é
que ninguém se
preocupa
com
as
que
estão
presas
e
só
se
preocupam
com
as
que
lá não
estão?
v) Duas
mulheres fazem um
assalto, uma porque
pobre, em
desespero, fê-lo para
dar de comer a um
filho, a outra
por motivos fúteis
ou com a
finalidade de praticar
um crime
ainda maior.
Presentes ao juiz,
tendo
este
em
conta as atenuantes e as
agravantes absolve a
primeira, encaminhando-a para uma
instituição que a
auxilie
e ao
seu
filho, e condena a
segunda, tendo em
conta as possibilidades que o
código penal oferece.
Não fará isto
mais sentido do
que
despenalizar/legalizar/liberalizar
o
furto? Há alguns
casos, todos o
sabemos,
em
que
quem recorre ao aborto se
encontra numa situação
dramática. Ora o
actual
código
penal
prevendo
essas
circunstâncias
contempla
a
possibilidade
de
não
haver
sequer julgamento.
Mas também há
muitos casos
em que a
leviandade, o egoísmo
e a
irresponsabilidade
estão
manifestamente
presentes. Não será
uma
clara
injustiça
tratar do mesmo
modo aquilo
que é diferente?