O Dia da Mãe


Cada um de nós podia lembrar da sua mãe heroicidades pequenas e constantes, do dia-a-dia, e grandes, que ainda hoje nos espantam e para as quais não há gratidão bastante. Algo tão natural nela como a respiração, e tão inseparável dela, que a maternidade absorvia (ou absorve) por completo a sua personalidade. A velha história do filho malvado que arranca o coração da mãe e, com ele ainda nas mãos, enlouquecido, corre, tropeça, e ouve ainda a pergunta carinhosa - "Magoaste-te, filho?", apesar de horrorosa, é perfeita expressão do amor materno. Se a pobre mãe pudesse falar nessas circunstâncias, diria possivelmente isso mesmo.

A maternidade transcende a mulher. É um mistério e um milagre constantes, imagem viva da transformação operada pelo amor: "Transforma-se o amador na coisa amada...". A mãe é alguém que deixa de existir para si e se converte em mera providência dos seus filhos. Aquilo que primariamente parecia significar apenas um aspecto mais da sua vida - ter uma criança - passa a representar o cerne de toda a sua personalidade, e passa ela, afinal, a ver-se e a comportar-se como um aspecto da vida dos filhos. Talvez nalgum caso queira resistir a tal absorção, receando perder totalmente a sua identidade pessoal, e procure afirmar-se ou realizar-se doutros modos, mas é luta inglória e vã. O amor não lho consente...

Acontecem coisas estranhas, isso é verdade. Pode acontecer que a mulher rejeite mesmo o fruto do seu ventre, pensando nele como um tumor maligno, ou como um intruso na sua vida. E que não se arrependa de o expelir, mas, pelo contrário, se alegre com a libertação da maternidade, por conseguir manter-se como simples e independente mulher! Ninguém manda nela! Os psicólogos descrevam o resultado íntimo desta operação.... O certo é que, com ou sem "depressão pós-aborto", a vida começou a andar-lhe para trás, ou, se se quiser, para dentro, como a luz sumindo-se num buraco negro. Ela enganou-se, coitada, pois ser mulher é ser mãe, como ser homem è ser pai, com filhos ou sem eles. Ser mulher ou ser homem é amar, é dar-se, é perder-se pelos outros, e a diferença reside tão-só na tonalidade afectiva. O egoísmo é tão anti-feminino como anti-masculino. Só somos autênticos homens ou mulheres quando "mandam em nós", quando estamos ao serviço dos outros.

Essa mulher enganou-se, ou foi cruelmente enganada. Pode "afirmar-se" de muitas maneiras profissionais ou sociais, mas, se tal "afirmação" é a da sua pessoa e não a do seu amor, de facto não se afirma; nega-se. Nega a sua identidade humana, substrato da sua feminilidade, para nunca mais se encontrar, excepto se a tal "depressão pós-aborto" (essa ferida tremenda) acaba se tornar insuportável. Efectivamente, nada melhor para a salvação da sua feminilidade do que a explosão ou implosão da angústia pós-abortiva. Quer isso dizer que o seu coração ainda funciona e é capaz de lhe reestituir a alma de mãe, voltando a ser mulher. Não é cruel fazer-lhe recuperar a sensibilidade; feroz seria anestesiá-la definitivamente.

Todos nós tivemos mãe, e somos testemunhas de que o milagre do seu amor é o segredo mais importante da nossa vida, a chave da mais profunda sabedoria. Sem amor, que sentido teria a nossa existência?

Hugo de Azevedo

Jornal de Notícias, 5 de Maio de 1998